Renato Lopes

Hoje é 25 de novembro de 2017. Santa Maria, RS

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Viagens e Aventuras


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Euro Trip Maxitrail - Leste Europeu - 2014

Euro Trip Maxitrail - Leste Europeu - 2014

Bem, meus amigos e irmãos motociclistas.
Depois do pisar na Europa, no início de abril, com a Wilma, na Espanha e Portugal, um projeto de rodar de moto por lá, que estava guardado em um arquivo do computador, acabou renascendo em um encontro dos amigos do Maxitrail em Gramado.
No deslocamento de Canoas para Gramado, na companhia dos amigos Felipe Klein e Leandro Aggens, surgiu o papo de conhecer um pouco do leste europeu. O Felipe falou do projeto, e eu fiquei muito interessado porque era exatamente a minha ideia para rodar de moto na Europa. Aqui se encaixa bem o ditado popular que “cavalo encilhado não passa duas vezes”, e eu, de pronto, me candidatei a integrar o grupo de viagem que já estava se formando, pois todo viajante e aventureiro que se preze tem de estar atento às oportunidades para realizar seus sonhos.
Assim, com a generosidade e aquiescência dos demais integrantes do grupo que se formava, eu passei a fazer parte do grupo e, após várias reuniões descontraídas em Porto Alegre, estabelecemos três roteiros. O principal, com parte do leste europeu, incluia a Alemanha, República Tcheca, República Eslováquia, Hungria, Croácia, Eslovênia e Áustria. Em razão da possibilidade de chuvas nessa região nos meses de setembro e outubro, que seguramente dificultaria o aproveitamento da viagem, deixamos, como plano “B”, a Alemanha, França, Espanha, Itália e Suíça. O plano “C” seria no sentido oposto, para o oeste, com Alemanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Irlanda e França.
Tudo organizado, ajustes de datas, tempo disponível dos amigos, passagens compradas, motos locadas e hotel reservado em Frankfurt, foi só marcar o encontro no aeroporto, dia 24 de setembro, com os amigos Felipe, Ramon, Rotband e Alexandre, e embarcar. Registre-se, todos grandes motociclistas e experientes em longas viagens de motocicleta, sempre um aprendizado a mais para quem gosta de ir além de onde se encontra.
Na chegada ao hotel em Frankfurt, por volta das 17 h do dia 25, fomos recepcionados pelo amigo Paulo Guilherme, o CP, outro parceiro, que viajou uns dias antes para visitar alguns parentes por lá. Hotel da rede B & B, muito bom e quase ao lado da Allround Motorradvermietung, onde locamos as motos, dica muito boa do amigo CP, que, aliás, foi quem coordenou todo esse processo de locação. Foram uma GS 1200 Adv, três GS 1200 e duas F 800 GS.
Instalamo-nos e fomos direto pegar as motos, para, no dia seguinte, partir em direção à República Tcheca, pois a previsão do tempo para os próximos dias era boa, com temperaturas que variavam entre 8 e 23 graus, e sem chuvas, perfeito para motocar.
À noite, por indicação do recepcionista do hotel, fomos jantar no restaurante Kuhstall (estábulo), distante umas cinco quadras, muito legal. À primeira vista meio sombrio pela decoração carregada, mas com ótimos pratos típicos, que nos foram indicados pelo Felipe e CP, e com atendimento bacana. Foi a noite de brindarmos a oportunidade de estarmos ali entre amigos para o início de uma viagem de motocicleta. A turma adorou o chope e a cerveja, ao contrário do “badalado” vinho de maçã, que parecia mais vinagre e rendeu boas risadas.
Dia 26/09, partimos para Praga e, como o trecho do dia era o mais longo do roteiro, saímos lá pelas 8 h e 30 min, pegamos uma autoestrada e, logo adiante, ao sairmos da grande Frankfurt, já entramos em uma Autoban. A turma das GS 1200 enrolou o cabo e passou pela polícia sorrindo, uma pena que era intracapacete.
Até a fronteira havia muitos trechos que alternavam entre Autoban e autoestrada, e alguns em obras de ampliação de pistas, com desvios cuja velocidade era de 80 km/h, momento em que eu conseguia alcançar a turma. O interessante é que apesar de aquela região parecer um grande canteiro de obras, por lá, as obras têm farta sinalização e segurança, inclusive com data para término. Ô maravilha! Postura de governo sério, que respeita o contribuinte.
Em toda a região ao norte da Baviera, Würzburg, Nürnberg, Amberg, Weiden, e entre os muitos outros vilarejos por onde passamos, há uma paisagem rural rústica e remota, adorável, que impressiona pela organização das plantações, estradinhas de acesso com asfalto até a porta das propriedades e matas verdejantes.
A fronteira é uma linha imaginária, só observamos que adentramos na República Tcheca porque havia uma placa indicativa do novo país. Continua a autoestrada em ótimo nível, e a paisagem não muda muito. Fizemos uma parada para abastecer, trocarmos um pouco de euro por coroa tcheca e fazer um lanche rápido.
O pit stop também permitiu verificar um pequeno incidente, em que um forro de frio da jaqueta de um viajante se soltou das amarras e foi triturado pela roda traseira da moto, com a graça do Supremo Criador, a roda não travou, apenas ocasionou pequenos danos e rendeu boas "cornetadas".
Temperatura amena, um pouco nublado, ótimo dia para pilotar, decidimos fazer uma pequena alteração no roteiro e dar uma passadinha na cidade de Pilsen, a quarta maior cidade da República Tcheca, com pouco mais de 160 mil habitantes, mas que é nada menos a cidade mãe das pilsners de todo o mundo, a “Pilsner Urquell” (pilsen original), onde tudo começou.
Fomos diretamente para a Praça Central, um marco da cidade, onde encontramos um centro muito compacto, rodeado por belas construções românicas e góticas, dominada pela enorme Catedral de São Bartolomou, de meados do século 14, ao centro. É uma combinação de exposições que se interage ao ar livre, com a linda atmosfera do Velho Mundo que o torna um tributo adorável, mesmo para os não iniciados.
Como a ideia era chegar ainda no final da tarde, a Praga, apenas realizamos o registro com algumas fotos, também um lanche natural e tomamos um café enquanto continuávamos a contemplar o movimento tranquilo e de paz num lugar que foi cenário de muitas guerras ao longo dos séculos.
A visita à Cervejaria Pilsner Urquell e à Sinagoga Grande, a terceira maior do mundo, ficou para uma próxima visita, e a degustação só foi adiada para o jantar em Praga.
A temperatura já começava a baixar, e as nuvens se mostravam inquietas quando retornamos à estrada com os GPS ajustados para o hotel B & B. Não demorou e precisamos fazer uma parada técnica para colocar roupa de chuva, mas já estávamos a pouco mais de 50 km de Praga.
Como a localização do hotel era na região da parte antiga da cidade e chegamos ainda com a luz do dia, fomos conhecer um pouco do centro, a praça central, o calçadão e a Torre da Pólvora, um majestoso pórtico gótico que marca a entrada da cidade velha.
Após uma boa caminhada com muitas fotos ao entardecer e início da noite, era chegada a hora de experimentar a culinária tcheca. Escolhemos o restaurante do Hotel Prague Inn, parte externa, bem ao centro do “furacão” como é a noite de Praga. Mesmo com pouco tempo na cidade, foi possível perceber que, à noite, Praga é simplesmente encantadora e faz jus ao carisma de ser uma das mais belas cidades do mundo.
Os pratos típicos são essencialmente à base de carne de porco. É bom conhecer um pouco para não errar feio no pedido. Não erramos, mas podemos dizer que não acertamos em cheio. A turma aproveitou para degustar a cerveja Pilsner Urquell.
Dia 27/09, nosso destino era chegar a Bratislava, na República Eslováquia, distante pouco mais de 280 km, e, assim, foi possível aproveitarmos a manhã para conhecer um centro velho e, depois, o outro lado do Rio Vltava que corta a cidade de Praga.
Ao retornar à região central novamente, com um pouco mais de tempo, foi possível observarmos melhor toda a bela arquitetura e o charme medieval com suas peculiaridades e detalhes de figuras entalhadas nas fachadas, verdadeira preciosidade da arte.
Após realizarmos muitos cliques no coração da cidade, a praça da prefeitura, circundada por casarios seculares e inúmeras igrejas, em especial o prédio da prefeitura antiga, com fachada contendo o brasão da cidade velha com a inscrição “ Praga, Capital do Reino”, apreciamos o relógio astronômico, que mostra a hora, dia, mês, posição da Terra, a órbita do Sol e da Lua e estações do ano. É o que consta em todos os informativos, mas complicado de entender. A igreja de N. Srª Diante de Tyn com as cúpulas de suas duas torres tipo agulha, apontando para o céu, se destaca e é referência da cidade. Chama a atenção a efígie da Virgem Maria em ouro entre as torres. Para qualquer lado que girarmos o olhar, encontraremos uma parte da história secular de Praga. É simplesmente impossível tentar descrever tanta beleza.
Passamos para o outro lado do rio por uma das atrações mais conhecidas de Praga, a Charles Bridge. Quando saímos das ruelas medievais do centro velho e nos aproximamos da ponte, logo percebemos o porquê da sua fama. Fomos recepcionados por uma torre gótica fortificada, na cabeceira da ponte, do século 14, tendo como destaque, entre várias, a escultura de São Vito. Ao lado direito, antes da ponte, se destaca um belíssimo prédio, que abrigou um colégio dos jesuítas. Um visual magnífico, infinitamente mais belo recordar as leituras, fotos e filmes sobre Praga.
A travessia da ponte, por si só, é um ótimo passeio com uma vista privilegiada, do castelo e das torres da Igreja São Vito, além de curtir um pouco da história através das muitas esculturas de santos dispostas ao longo da ponte. A mais visitada e tocada é a de São João, que, segundo a crença de muitos, promete sorte, talvez por ser a primeira a ser colocada. Pelo sim, pelo não, há registro fotográfico de todos os integrantes do grupo tocando a estatueta ...
Os mais de 500 metros da travessia devem ser percorridos com tranquilidade e sintonia com o astral do local, com intenso trânsito de visitantes e também frequentada por músicos, pintores e ambulantes. A torre do outro lado, entrada da cidade nova, igualmente é digna de registro.
A caminhada até o alto do castelo é íngreme e exige esforço físico, que é compensado com o visual ao longo das ruas, recheadas de construções exuberantes e magníficas obras de arte, e, ao final, a magnitude do complexo do Castelo de Praga, que incluí a Catedral de São Vito. Visitar e percorrer a história milenar desse santuário, com seu estilo e obras esplêndidas, seguramente é um privilégio. A altura da abóbada é impressionante, a exemplo de tantos outros detalhes.
A beleza de Praga é inimaginável e impossível retratar em palavras, talvez as imagens que o grupo amealhou possam dar uma ideia dessa deslumbrante cidade.
Retornamos ao hotel, e, passado do meio-dia, partimos em direção a Bratislava por uma ótima autoestrada e, após uns 120 km, seguimos por estradas vicinais, pois queríamos conhecer um pouco da vida no interior da República Tcheca. A estrada estreita, asfalto em perfeitas condições, boa sinalização, pouco tráfego, topografia quase plana, muitas plantações, pequenas propriedades e boas curvas, nos proporcionaram um belo cenário para motocar, sentir o modo de viver dos tchecos e fazer alguns registros.
Após passarmos de Jihlava, região de belas e organizadas propriedades rurais, encontramos um restaurante muito típico que se confundia com a essência da vida campesina, a qual só identificamos pela placa indicativa. Simples, mas com conforto, bom atendimento e boa comida. Algumas fotos e seguimos rumo a Viena, na Áustria, para, ao menos, tomarmos um café.
Antes da fronteira, uma parada para adquirirmos a vinheta, tipo selo, ao custo de seis euros, para colar na moto, uma espécie de pedágio antecipado para rodar na Áustria, com validade para dez dias. Em Viena, apenas abastecemos as motos e tomamos um café, seguindo por autoestrada, para desconforto de alguns parceiros, e chegamos antes do anoitecer em Bratislava.
Aproveitamos a noite para conhecer um pouco do centro da pequena, tranquila e pouco conhecida capital da República Eslováquia. A cidade é cortada pelo Rio Danúbio que, de certo modo, lhe proporciona algum charme, nada comparado a Praga. Na caminhada até o centro, foi possível perceber nitidamente uma arquitetura pesada e sombria de prédios similares e alinhados, bem ao estilo dos países do antigo bloco comunista, a que assisti, por vezes, em muitos filmes. Nem por isso se pode tirar os seus méritos e importância histórica da época.
No centro, jantamos no Slovak Restaurant, bem típico e tudo tendo como base o porco, cujo destaque ficou por conta do tamanho absurdo das fatias de pão servidas como entrada. Antes de retornarmos ao hotel, uma passada em um tradicional Pub para degustação de um ótimo chope e dar boas risadas. Na Eslováquia, tudo parece ser mais barato que os demais países da Europa, o que nos permitiu ficar no Hotel Sheraton. Como de regra, desde o primeiro dia foi instituído o rodizio da duplas de quarto, com escala antecipada enviada por mensagem. E, face à escala do dia, a noite foi memorável e honrou as tradições gaúchas.
Dia 28, domingo pela manhã, antes de pegar a estrada, combinamos de conhecer o Castelo Bratislava, do século 11, localizado nas imediações do centro, no alto de um monte, onde se tem uma vista privilegiada do Rio Danúbio, suas pontes e parte da cidade. Infelizmente, o castelo está em restauração, e a parte interna do museu estava fechada à visitação. Tentamos estacionar as motos em frente à entrada do castelo, mas nosso guia da manhã foi literalmente “corrido” por um guarda muito mal-educado. Além de não entendermos nada do que dizia, além dos gestos que fazia, o fato foi cômico e se prestou a muitas gargalhadas.
Mais uma vez ajustamos o GPS para evitarmos a autoestrada e, outra vez, pegamos estradas menores em direção a Budapeste, capital da Hungria. Na saída da cidade, após a travessia do Rio Danúbio, abastecemos as motos e realizamos um lanche rápido, em um posto de serviço acanhado, onde um grupo de motociclistas se encontrava.
O amigo CP puxava o grupo desbravando aquele território simpático por ótimos caminhos e paisagens revigorantes, pela quais circulavam muitos motociclistas. Após rodarmos uns 120 km, muito próximo ao Rio Danúbio e costeando montanhas com muitos bosques, entre campos e plantações, chegamos à cidade de Komárno, fronteira com a Hungria.
Percebemos que se tratava da divisa de países em razão das edificações antes da ponte, mas todas estavam fechadas sem qualquer sinal de vida. A abolição dos controles fronteiriços e o livre acesso entre os países da Comunidade Europeia são uma demonstração de civilidade e tentativa de união entre os povos da região, que, ao longo dos séculos, sofreram com anexações, divisões e invasões.
Uma rápida parada para registros fotográficos do grupo, das motos, da antiga aduana, do Rio Danúbio e da ponte que liga o pequeno e jovem país da República Eslováquia com a Hungria.
Logo que passamos para o outro lado do Rio Danúbio, na cidade de Komárom, Hungria, bem menor, foi possível identificar com clareza a face da antiga cortina de ferro, pelo aspecto exterior e aparência de tristeza do lugar, muito modesta, embora limpa e organizada. As duas cidades já foram uma só, seja pertencendo à Hungria ou à antiga Tchecoslováquia e possuem o mesmo nome, só diferem na grafia.
Parada rápida no primeiro posto de serviço para adquirir a vinheta, para transitar no país por 10 dias, no valor de 1.470 florim húngaro, em torno de 5 euros, que, na Hungria, não é tipo selo, mas um tíquete no qual consta, inclusive, a licença da motocicleta. Nossos parceiros tradutores, que falam alemão, já sentiram que a comunicação com o húngaro, como também foi com o eslovaco, não seria muito fácil. O jeito era encontrar alguém que falasse inglês, normalmente os mais jovens.
Pegamos a estrada novamente e, para nossa alegria a quantidade de motocicleta circulando aumentava na região. Ao alcançarmos um casal motociclista, que não tardou em sinalizar e entrar em uma estrada à esquerda. O CP, que continuava a puxar o grupo naquele momento, observou no GPS que havia uma estrada muito sinuosa naquela direção e o seguiu.
Eu, particularmente, e os outros também, não entendemos, no primeiro momento, pois já estávamos nos deslocando por uma rota alternativa do interior e seguindo o GPS, mas não tardou e percebemos que era uma rota de motociclistas pela grande quantidade que circulava em ambos os sentidos. Era um domingo de sol, um dia perfeito para pilotar uma moto, e os motociclistas húngaros e eslovacos sabiam disso e escolheram, por certo, a melhor rota.
A estrada vicinal, sem acostamento, que subia e descia uma região de baixas montanhas, quase toda agricultável, com infinitas curvas, permitiu ao grupo brincar um pouco com as motos num verdadeiro bailado, um momento de pura diversão.
E para ficar perfeito, quando saímos de uma de tantas curvas, avistamos, no topo de um monte, próximo ao povoado de Nagysáp, o restaurante Granárium, construção nova, com estacionamento especial para motociclistas, onde havia um armário metálico com cabide para colocar a jaqueta, espaço para capacetes e pertences e um sistema com cabo de aço para segurança da moto. Muito bem projetado e que facilita a circulação e a estada dos motociclistas no interior do restaurante. Um momento especial, boa comida, uma bonita vista com o ininterrupto circular das motos que quebravam o silêncio e a paz do lugar.
Depois de um bom papo do grupo com o dono do restaurante, seguimos para Budapeste onde chegamos no final da tarde e fomos direto para o Hotel Mercure, com apenas 251 km rodados no dia.
O percurso para o hotel, circulando pela margem do Rio Danúbio, já indicava, aos nossos olhos e mentes, a grandiosidade da beleza da cidade de Budapeste divida pelo rio. Infelizmente, o trânsito era intenso naquele momento, aliado aos cuidados com os bondes que cruzam transversalmente muitas vias, que, com as seis motos, tornou impossível um pit stop fotográfico.
Antes do anoitecer, ainda foi possível dar uma caminhada pelo centro do lado “Peste” da cidade, onde estão localizados a maioria dos hotéis, centros comerciais, grandes prédios e as charmosas confeitarias e cafés, que justificam a fama de noites agitadas da cidade. Após o jantar em um restaurante bem estilo taberna, bem animado, quando as risadas foram adornando o bom papo que permitia ao grupo ampliar as amizades, o conhecimento, a fraternidade e, sobretudo, a satisfação do convívio da viagem, foi possível curtir o visual noturno da cidade caminhando à beira do rio.
Dia 29 tiramos a manhã para conhecer um pouco da grande e bela Budapeste. O dia amanheceu um pouco acinzentado e com algo parecido com cerração, que dificultava a visão ao longe. A pé, fomos conferir alguns pontos, caminhando pela beira do Rio Danúbio admirando o prédio do Parlamento, o qual se identifica de longe, lembrando o Parlamento inglês. Magnifico.
Do outro lado do rio, em Buda, utilizamos o antigo funicular para subir até o Castelo de Buda. Na verdade, no morro se encontra uma igreja, museus, monumentos e praças, com uma vista privilegiada do Rio Danúbio e da cidade de Budapeste. As fotos ficaram um pouco prejudicadas, mas, sem dúvida, a vista noturna do castelo, prédios e monumentos é um espetáculo incomparável.
A história húngara é muito rica e o número de atrações da sua capital é muito vasto, que aliado a uma arquitetura clássica, o que a torna uma das capitais mais belas da Europa. Uma cidade que merece um retorno para ser mais bem explorada.
Quando retornamos do castelo, ainda caminhamos um pouco mais pelo centro e calçadões nas imediações do hotel, registrando algumas fotos e comprando suvenir.
Passado das 12 horas, check-out no hotel e pegamos a estrada para Zagreb, na Croácia. A saída de Budapeste em direção a Zagreb é muito bonita, e o início de tarde ainda se mantinha com a temperatura agradável, em torno de 12 graus, tempo nublado e ótima estrada. Na paisagem, se observavam pequenas propriedades bem estruturadas.
Depois de rodar, aproximadamente 70 km por autoestrada, viramos à direita para contornar o grande Lago Balaton, por uma rota do interior para conhecer ao máximo o estilo de vida do país.
Em Balatonalmádi, povoado à beira do lago, encontramos o ótimo Restaurant Határ, onde degustamos o almoço por quase uma hora, em meio a bom papo, ajustes de roteiro e busca de hotel para pernoitar em Zagreb.
O lago tem mais de 70 km de extensão, e seu entorno é praticamente área de lazer, com muitos povoados e casas ajardinadas. O verde da vegetação é abundante. Seguimos em direção à península de Tihany que avança no lago para atravessá-lo pelo ferry. Um povoado muito bonito, mas, como perdemos o horário do ferry, preferimos fazer todo o contorno no lago, o que atrasou muito a tocada do dia, pois a infinidade de curvas e acessos na estrada, no final, se verificou cansativa e pouco interessante, face à similaridade de paisagem.
Retornamos à autoestrada e, ao entardecer, passamos a fronteira da Hungria com a Croácia, onde havia toda a estrutura do antigo controle aduaneiro, bem iluminado, mas com as cancelas abertas, foi só seguir em frente. Na Croácia, não há vinheta para transitar pelas autoestradas, mas havia dois controles de pedágios com apenas as máquinas operando. Um pouco antes da cidade de Zagreb, encontramos o controle ao qual entregamos os tíquetes e pagamos os pedágios, que, ao todo, custaram 7 euros.
Acessamos o centro de Zagreb para chegarmos ao Hotel Garden por volta das 20 h e 30 min, quando o odômetro parcial da moto marcava 406 km . Todos estávamos cansados da caminhada da manhã e do trecho travado em torno do lago e queríamos um bom banho. O hotel, em um prédio antigo, todo renovado internamente, seria muito bom não fosse a falta de elevador que estava por ser instalado e nossos quartos estavam no sexto pavimento. Tema que rendeu boas risadas e brincadeiras entre os amigos durante o jantar.
Na manhã do dia 30, aproveitamos para conhecer a parte da cidade velha de Zagreb, onde se concentram várias de suas relíquias históricas, como as imperdíveis ruelas estreitas e sua arquitetura de muitos séculos, a Praça Jelacic, o grande e belo prédio do Museu Mimara, a Catedral em estilo gótico e a Rua Dolac com suas tendas e vendedores vestidos com roupas típicas, as frutas da região, um conjunto fabuloso e harmônico.
Era ir caminhando e descobrindo a cada rua um bom ângulo para fotografar. A impressão que ficou foi que o país merece ser mais bem explorado, especialmente as cidades como Drubrovnik, Split, Lozovac e Rijeka no litoral do Mar Adriático. As informações dão conta que são imperdíveis.
No início da tarde partimos para Ljubljana, na Eslovênia, com temperatura agradável e tempo nublado em direção a região da montanha próximo à cidade. A estrada estreita vai serpenteando a montanha com curvas fechadas em meio à mata. A motocada do dia foi um roteiro que alegrou a turma.
Chegando ao topo dos 1.033 m.s.n.m., encontramos a estrutura da estação de esqui Sljeme, com vários bares e restaurantes. Como estava fora da estação de inverno, apenas dois restaurantes estavam abertos.
Enquanto alguns registravam fotos e filmavam, um tirava uma sesta antes do almoço no gramado sob as árvores, uns tentavam comer e beber alguma coisa, e outros verificavam rotas em mapas e GPS. Quando nos acomodamos no “deck”, anexo a um restaurante, com uma vista privilegiada de boa parte da cidade, o garçom informou que só aceitavam a moeda local, kuna croata. Nada de euro ou cartão.
Assim, após definirmos que seguiríamos pela montanha em direção à Eslovênia, começamos a descer por estradas sinuosas em meio a muito verde. Estrada estreita e molhada em alguns trechos, ficou difícil uma tocada forte, inclusive um parceiro “se safou” com a eficiência do controle de tração da motoca. Quando atingimos uma região mais plana, a estradinha começou a adentrar em propriedades, plantações, vilarejos e povoados, foi ficando mais estreita, só circulava um veículo de cada vez. Em dado momento, dava-nos a impressão de que, a qualquer momento, entraríamos na sala ou cozinha das residências, pois, em algumas, nem pátio na frente havia.
Depois de bom tempo curtindo esse trecho de “louca aventura”, encontramos um restaurante com boa aparência em um dos vilarejos, estacionamos as motos, desequipamo-nos e tal ... e fomos informados de que só aceitavam a kuna croata. Aí lembramo-nos de quando muitos de nós reclamamos ao rodarmos pelo interior dos países da América do Sul e alguns estabelecimentos só aceitarem a moeda local. Verifica-se que isso ocorre mundo afora.
Não tardou e encontramos uma estrada secundária excelente, e, repentinamente, estávamos no povoado de Rigonce, saindo da Croácia. Eu, sempre atento ao cenários, aproveitei a parada para fazer umas fotos das plantações e casas muito bem ornamentadas com flores. Era um pequeno vilarejo, algumas casas novas, e outras, nem tanto, indicando o uso como galpões, tudo muito organizado.
O controle aduaneiro croata nos permitiu passar sem qualquer identificação. Atravessamos uma ponte sobre um pequeno rio e, a uns 200 metros à frente, a aduana da Eslovênia. Coincidentemente, os amigos com dupla cidadania estavam à frente e, ao serem abordados para mostrarem os passaportes não tiveram problemas, eram da CE. Quando chegou a vez dos brasileiros, foi-nos informado de que aquela fronteira é só para trânsito da CE, os estrangeiros só poderiam acessar o país pela autoestrada, onde tem o controle geral. Levamos “na boa” a bola fora, mas o pior estava por vir.
Começamos o retorno e verificamos, após rodarmos algum tempo, que havia o Rio Sava entre a região em que estávamos e a autoestrada, e não havia ponte que ligasse as duas estradas. É o rio que atravessa Zagreb e se estende até Ljubljana na Eslovênia. Resultado, praticamente tivemos de retroceder a cidade de Zagreb para pegar a autoestrada. Bem, ai paramos em um posto de serviço para abastecer e fazer um lanche, pois as barras de cereais já não estavam dando conta ...
Na entrada da Eslovênia, os amigos com dupla cidadania passaram direto pelo amplo complexo da aduana, enquanto os quatro cidadãos brasileiros tiveram de dar entrada no país com o passaporte, muito rápido, apenas um carimbo, apresentamos o documento da motocicleta e estávamos autorizados a seguir.
Chegamos a Ljubljana no final da tarde. A distância de Zagreb é apenas 140 km, mas, com o passeio pelo interior, o dia fechou com 291 km. Fomos direto ao Hotel Park, localizado muito próximo do centro, apenas 10 minutos a pé.
Saímos para jantar, desfalcados de um integrante do grupo que preferiu ficar no hotel. Depois, ainda caminhamos um pouco pelo centro e chegamos à margem do Rio Ljubljanica que corta o centro e onde parece acontecer a vida noturna da cidade. Na verdade, grande parte da região do centro e o morro do Castelo de Ljubljana é uma ilha cercada pelos rios Ljubljanica e Gruberjev.
Após jantarmos, aproveitamos para sentir o clima bucólico da cidade em um dos inúmeros bares espalhados dos dois lados do Rio Ljubljanica, todos muito concorridos, o que, para uma terça-feira, bem sinaliza o modo alegre e descontraído da cultura eslovena. Tivemos a nítida impressão de que Ljubljana é um point ou refúgio dos europeus em busca de vida noturna diferenciada. O idioma incompreensível é um limitador, a exemplo da Hungria, Croácia e Eslováquia, nas cidades maiores é possível a comunicação em inglês.
Aqui cabe um comentário para não passar batido. Quando estávamos no hall de entrada do hotel aguardando alguns amigos decidirem se iriam sair para jantar, ficamos devorando os folders e livretos de divulgação da Eslovênia e Ljubljana. Verificamos que o país tem dimensões minúsculas, uma população de pouco mais de 2 milhões de habitantes, mas abriga uma grande quantidade de atrações belíssimas escondidas na paisagem.
Na fronteira com a Itália e a Áustria, na região montanhosa dos Alpes, a paisagem se divide entre campos esverdeados e a existência de um grande complexo de cavernas. No pequeno trecho do litoral Adriático, encontra-se um dos mais belos oásis de água cristalina. A Eslovênia também se destaca, com força, na rota do ecoturismo, com florestas, rios, lagos, centro de esqui, fazendas turísticas, pântanos e turfeiras.
Outros atrativos culturais também se destacam, como os impressionantes castelos medievais espalhados pelo país. Castelo Bled, construído no século 11, e Castelo Predjama, do século 12, o mais impactante e visitado do país. A gama de fotos que folhávamos, imediatamente gravava, em nossa mente, a necessidade de retornar para conferir e sentir melhor a Eslovênia, como sugeria a capa da revista informativa, “I feel Slovenia”.
O dia primeiro de outubro previa tempo chuvoso para a região das montanhas, sentido Áustria e Alemanha. Um parceiro do grupo decidiu pegar a estrada mais cedo em direção a Grossglockner, travessia mais alta dos alpes austríacos. Os outros integrantes ficaram para conhecer um pouco mais da cidade.
Subimos o morro que dá acesso ao Castelo de Ljubljana, um dos mais famosos e importantes do país, construído no século 17 como fortaleza, atualmente abriga um museu de história. A vista da cidade é fantástica, não fosse o tempo que se mostrava contrariado aos nossos interesses.
Nossa visita foi relativamente rápida, pois a cara feia das nuvens escuras davam notícias de que a chuva se aproximava. Mas esse prenúncio não impediu que fizéssemos algumas fotos e que, após algumas discussões históricas de teorias improváveis e outros tantos devaneios, tivéssemos descobertos que os integrantes do grupo eram descendentes direto e herdeiros da dinastia milenar do 3BK. Essa fantástica descoberta no interior do Castelo de Ljubljana continua rendendo divertidas brincadeiras e mantém o grupo unido até os dias de hoje, mas é tema da “milha”, aquele do tipo, “tudo que acontece na milha, fica na milha”.
Assim fomos nos despedindo de Ljubljana, deixando para trás um gostinho de quero mais, pois esse é o preço que se paga quando o tempo disponível é curto. Foi possível sentir que a cidade, embora pitoresca, é vibrante, marcada por fortes tradições históricas e artísticas, e, além de ser o coração cultural e político, demonstra uma hospitalidade que cativa o viajante.
Se você se encorajar em visitar esse pequeno país chamado República Eslovênia, podemos afirmar que você não vai entrar numa “furada”.
Pegamos a autoestrada com o azimute apontando para Lienz, no pé dos alpes austríacos, rumo a Grossglockner, para encontrarmos, em algum lugar, o parceiro madrugador daquela manhã sombria que prometia chuva. Após rodarmos pouco mais de 90 km por estradas espetaculares e paisagens deslumbrantes, passamos pela aduana da Eslovênia carimbando a saída do país no passaporte e seguimos livres ao entrar na Áustria.
O cenário de montanhas continuava a nos cercar, mas a chuva logo nos pegou de mansinho para mostrar sua força nos km seguintes, embora a temperatura de 15 graus. Também algumas obras de ampliação e manutenção bem sinalizadas, alguns túneis que entravam montanha adentro, um deles por quase 8 km, onde se paga uma tarifa de 11 euros para a travessia.
Com o trecho em obras próximo ao acesso a Graz Villach, dois incautos parceiros seguiram para o lado oposto ao indicado na sinalização, possivelmente atrapalhados pela chuva e viseira embasada. Mas ficou de bom tamanho o passeio que foram obrigados a fazerem, pois nos permitiu, enquanto aguardávamos logo adiante, capturarmos o registro de um castelo na crista de uma grande elevação e um povoado entre vales e montanhas em meio às nuvens que baixavam na região.
Próximo a Spittal an der Drau saímos da Autoban A2 e seguimos por uma estrada simples, mas perfeita, entre as imponentes montanhas e sob o manto de um verdadeiro aguaceiro. As estradas eram tão boas por lá que, com a boa performance das motos novas, foi possível manter uma boa tocada.
E assim fomos por uns 110 km até chegarmos a Lienz, onde paramos para fazer um lanche e decidirmos o que fazer. Subir a montanha com chuva e nevoeiro para passarmos por Grossglockner, ficarmos na pequena e linda cidade de Lienz no vale que ascende às altas montanhas, ou ir a Salzburg. Depois da conferência, o grupo definiu retornar até a Autoban e seguir para Salzburg.
Ainda aproveitamos o pit stop para fazer a reserva do NH Salzburg City Hotel, onde chegamos no final da tarde com chuva até o acesso à cidade, e quase 400 km rodados. O horário era de muito tráfego, pista molhada, com os longos trólebus dominando os espaços das ruas, o que exigiu mais atenção ao trânsito que na tela do GPS. Embora seja a quarta maior cidade da Áustria, Salzburg tem menos de 150 mil habitantes.
Parece que todas as principais cidades dessa região da Europa são cortadas por rios. Salzburg não é diferente, o Rio Salzach parte o centro e a cidade, o que, de certo modo, favorece, ao bom estilo e charme, as cidades, que mais parecem um lindo jardim com requintes de beleza.
Ainda chuviscava quando saímos para apreciar o centro, comprarmos os famosos chocolates de Salzburg, presentes, souvenirs, e para o nosso parceiro versado em vinhos adquirir alguns exemplares raros da região. Foi o possível a fazer antes de nos deliciarmos com um bom prato típico e boa cerveja no Restaurante Alter Fuchs, bem tradicional de Salzburg. Eu continuava na água mineral sem gás e sem gelo, mas a diversão com o colóquio pós dia de estrada era a mesma.
Em troca de mensagem com o parceiro desgarrado, tomamos conhecimento de que ele já havia encontrado uns austríacos “amáveis” e estava hospedado no alto da montanha, em Pinzgau, e parece ter dormido ao som de um gaiteiro e cantantes da terceira idade.
Ao final da noite, depois de verificarmos que a previsão do tempo para o dia seguinte na região dos alpes continuava marcando chuva, decidimos antecipar o retorno a Munique para ir à Oktoberfest e à loja da BMW. Reservamos um hotel com uma localização muito próxima do parque da Oktoberfest e informamos o amigo que pernoitava em Pinzgau da nossa programação para o dia seguinte e endereço do hotel.
Sem muito estresse, a nossa partida de Salzburg, dia 02, foi às 9 h e por autoestrada, maior parte em Autoban. A ideia era aproveitar o dia em Munique. A chuva ameaçou, mas não caiu por toda a manhã, que se manteve fechada e com cerração.
A região dos Alpes entre Salzburg e Rosenhein, quando ainda se está rodando para oeste, é um importante roteiro turístico a partir de Gad Reichenhall, passando por Ruhpolding até as águas azuis do maior lago da Baviera, o Chiemsee. Infelizmente, só ficamos com o registro visual das notáveis paisagens das montanhas e dos vales jardins, embelezados por pequenos povoados de casas esparsas.
Com ótima estrada para acelerar, a turma se empolgou e fizeram os motores elevarem o giro para percorrer os 146 km de distância, tanto que fiquei um pouco para trás, mantendo a velocidade de cruzeiro entre 140 e 150 km/h. Passei lotado pela primeira saída de acesso a Munique e só deu tempo de ver os parceiros passando por cima de um dos viadutos. Segui em frente, e o GPS recalculou para a próxima saída, 20 km à frente.
Assim, entrei solo em Munique por outro lado da cidade e, às 11 h, eu estava estacionando a moto em frente ao hotel. Cinco minutos mais tarde o grupo também chegou. O tráfego era intenso, mas muito bem ordenado, com todos respeitando as regras e que nós não dominávamos completamente. Especialmente algumas conversões e pistas especiais para os trólebus e táxi.
Colocamos as motos na garagem, instalamo-nos no hotel e acordamos de irmos à Loja da BMW em uma hora. Reunião no hall e com as informações da recepcionista e do mapa da cidade, chegamos até a estação de trem Hauptbahnhof, um dos pontos de referência de Munique, que ficava há poucas quadras do hotel. Seguimos para a loja da BMW de metrô, pois tem uma estação na porta de entrada. Uma barbada!
A loja é imensa e ficamos por lá em torno de uma hora, onde alguns aproveitaram para fazer algumas compras direto na fonte. Dá para se dizer que tem tudo. Só lembro de ter conhecido uma loja desse nível, que é a Irv Seaver Motorcycles, em Orange, CA, EUA.
Pegamos outro trem para a Marienplatz, o outro ponto de referência da cidade, onde se pode explorar muitas atrações pela redondeza. Toda a área é recheada de belas construções seculares de estilo barroco e gótico que se misturam ao moderno, mas o que impressiona é a quantidade de pessoas, notadamente turistas, no largo onde está o Rathaus, um belíssimo prédio que abriga a prefeitura. Impossível deixar se ser fotografado.
Caminhamos poucas quadras adiante e chegamos à cervejaria Hofbräuhaus. Todo bom cervejeiro sabe que é a mais famosa do mundo, o que não era o meu caso. Mas, pelo que percebemos, sem dúvida, deve ser a mais visitada do mundo. Foi fundada em 1589.
É formada por um complexo de salões amplos, o principal no térreo possui todas as portas e janelas em arco, o teto e pisos completamente decorados com pinturas de brasões e bandeiras, dando um toque de requinte e originalidade.
Rapidamente conseguimos uma mesa no salão principal, o mais concorrido, e aí, meus irmãos e amigos leitores, foi difícil abandonar aquela mesa consagrada à melhor cerveja. Levantar? Só quando a bexiga reclamava! E assim foi, às 16 h as 21 h e 40 min, entre um prato típico da Baviera, uma salsicha branca, muita, muita cerveja e o sempre presente pretzel, muita risada, dança, gritaria, debate e até um companheiro tentando falar japonês. Eu tomei um copo grande de chope sem álcool, óbvio que foi o melhor que já tomei, e ri muito com os amigos.
No balanço, dois passaram da cota nos litros de cerveja, um não conseguiu terminar de comer um prato de sushi e sashimi. Por pouco não fechamos o local. No final da noite, todos a salvo no hotel, quando reencontramos o amigo que havia seguido por outra rota no dia anterior.
Duas coisas me chamaram a atenção no Hofbräuhaus. As mesas amplas e compartilhadas, muito interessante, especialmente para você se misturar com os locais e mesmo com pessoas do mundo, uma experiência diferente para nós. A outra foi o comportamento dos alemães, que, de regra, têm postura mais contida, na cervejaria apresentavam uma atitude mais solta, conversando alto, gritando, cantando, dançando e batendo com as canecas enormes nas mesas, com muita festa e descontração. A visita é inesquecível e necessária!
Retornando ao hotel, combinamos fazer uma visita ao Parque da Oktoberfest após o café e partiríamos após o check-out para Frankfurt.
A visita ao Parque da Oktoberfest, no dia 3, foi com uma manhã nublada, perfeita para caminhada de poucas quadras. Desde cedo, o movimento é intenso, todas as ruas que chegam ao parque estavam tomadas de grupos de pessoas, a imensa maioria alemães.
Por lá também tudo é grandioso, muitas opções para os adultos nas tradicionais cervejarias e muitas atrações e parques temáticos para as crianças. Visitamos a cervejaria Hofbräuhaus no parque e, novamente, é impressionante o tamanho e a quantidade de pessoas bebendo cerveja e chope às 10 horas da manhã.
Como dois parceiros queriam descansar um pouco mais porque iriam retornar ao Brasil no sábado, seguiram direto para Frankfurt pela Autoban. Eu e mais três parceiros fomos por Autoban até Stuttgard, depois pegamos estradas secundárias, passando por uma pequena cidade na qual mora uma amiga do Felipe.
Enquanto ele visitava a amiga, combinamos fazer um lanche e aguardar no posto de serviço do povoado, marcado no GPS. Chegamos ao endereço e havia uma revenda de automóveis no local. Fomos para o outro mais próximo e passei uma mensagem ao Felipe. Aguardamos mais de 30 min, e o GPS do Felipe, que estava em outro ponto, mandou para outra estação de serviço. Aí ele acabou seguindo solo pela Autoban. Eu e os dois parceiros continuamos pelas estradas secundárias e chegamos, à boca da noite, no Hotel B&B em Frankfurt.
Era o dia da despedida das motocas e de concluir a trip pegando as estradas pelo interior, foi muito bom, pois nos possibilitou conhecer um pouco mais do país. Uma pilotagem com velocidade mais baixa sempre nos permite uma atenção maior ao cenário que está a nossa volta.
O interior da Alemanha é caracterizado por sua magnífica paisagem. A sua área rural tem um cenário bucólico e pitoresco com a grande quantidade de cidadezinhas que vão se empilhando ao longo das vias interioranas e quase sempre junto aos rios, outra grande característica alemã.
Fomos jantar no restaurante Kuhstall, novamente pela comodidade de estar perto do hotel. Dessa feita, a garçonete foi outra, e o atendimento não foi tão legal. Mas a cerveja estava gelada e a comida, boa.
Na manhã do dia 4, por volta das 9 h e 30 min, entregamos as motos sem problemas extras. As motos se comportaram muito bem, como era o esperado. Todos estávamos acostumados com os tipos de motos locadas, eram novas e a empresa, desde o início, se mostrou muito séria, competente e amigável. Assim, foi possível curtir mais a viagem.
Com dois carros locados, seguimos para Colônia para visitar a Intermot 2014. Uma das maiores feiras de moto do mundo.
Na entrada do complexo do moderno Koelnmesse, onde se adquire o ingresso, recebemos um livreto com 32 páginas com todas as informações detalhadas do evento, mapas dos pavilhões e localização de cada estande, restaurantes e atrações. Todas essas informações também estavam disponíveis gratuitamente para download no seu smartphone.
Almoçamos e iniciamos a percorrer os principais pavilhões e estandes, pois tudo é muito grande por lá e precisaríamos de mais tempo, o que não tínhamos. Para se ter uma ideia da grandiosidade da Intermot de Colônia que nesse ano comemorou seus 50 anos, eram mais de 900 expositores de 35 países e mais de 1000 marcas, e tudo isso abrigado por mais de 118 mil metros quadrados.
Além de encontrar tudo que se refere a duas rodas, a programação é cheia de eventos atrativos, inclusive para crianças.
Os amigos Ramon e Alexandre Aggens retornaram no final da tarde para Frankfurt onde embarcaram de regresso ao Brasil naquela noite, enquanto eu com os demais amigos permanecemos até mais tarde e, mesmo assim, não conseguimos passar por todos os pavilhões.
Depois de nos instalarmos no Hote Holiday Inn, no centro, onde o Rio Reno corta a cidade, fomos conhecer a Catedral de Colônia, estilo gótico, com torres de mais de 157 metros de altura, é a maior da Alemanha e uma das mais famosas da Europa. As fotos externas ficaram a desejar, pois não estávamos no momento com uma boa câmara.
Não tínhamos nenhum religioso fervoroso no grupo, mas era impossível deixar de visitar uma majestosa igreja como essa, pois a sua arquitetura fascinante era história na certa. É impressionante a sua beleza.
O centro de Colônia estava bastante agitado naquela noite de sábado, com a grande concentração de lojas, restaurantes, bares e pubs. Encontramos um restaurante típico mais que centenário para jantar.
No domingo, dia 5, aproveitamos para conhecer a região vinícola às margens do Rio Mosel. Passamos por Bonn e seguimos até as imediações de Koblenz, sempre margeando o Rio Reno, uma pena que o tempo estava muito nublado e com alguns chuviscos.
Quando alcançamos o Rio Mosel, começamos a descer em direção a Trier seguindo suas curvas sinuosas e vales profundos, com paisagens magníficas e muitos vinhedos nas encostas. A região é repleta de cidadezinhas históricas, como Bernkastel, Traben, Zell, Müden e Trier. Com a inspiração advinda de cada cena que se descortinava ao subir e descer por vales e curvas, foi-me possível imaginar sentado à margem do rio, saboreando um bom vinho regional, tendo à frente um castelo milenar. É uma região que merece uns 4 dias para visitar com tranquilidade.
Mas, definitivamente, o dia foi péssimo para curtir uma das regiões mais belas da Alemanha, e o tempo só melhorou um pouco antes de chegarmos a Trier quando era passado das 13 horas, nosso destino do dia. Uma grande dica do nosso amigo e guia Felipe Klein, que morou e estudou na Alemanha por quase um ano.
A simples chegada a Trier já foi um encantamento, conhecer um pouquinho foi espetacular. E parece que os Deuses Romanos conspiraram para que o tempo abrisse em homenagem aos novos visitantes do dia.
Trier ostenta ser a mais antiga cidade da Alemanha, fundada no ano 15 a.C. pelos romanos, e de possuir a maior coleção de ruínas romanas do norte da Europa, em destaque para a Hauptmarkt com fachadas de prédios centenários, a Porta Negra, último dos quatro portões da cidade de Trier, do século II, as notáveis ruínas de Kaiserthermen, os maiores banhos do mundo romano, do século IV, a Catedral Dom St Peter, considerada a mais antiga da Alemanha e a Konstantinbasilika construída para ser uma sala do trono do imperador Constantino no século IV. A cidade foi tão importante na antiguidade que chegou a se tornar a capital do Sacro-Império Romano no século III.
Depois de 2 h caminhando por uma cidade de mais de dois mil anos, sentamo-nos no Restaurante Pizzeria Te Basilika, na Konstantinplatz, onde almoçamos, na parte externa, mesmo com o friozinho dando o ar da graça. Era literalmente incompreensível deixar de apreciar toda aquela maravilha diante de nossos olhos. Impressionantemente irresistível.
Retornamos a Frankfurt onde chegamos ao final do dia e nos hospedamos no Hotel Holiday Inn no centro. Como optamos pelo centro, aproveitamos a noite para conhecer um pouco da parte histórica da cidade, na verdade, a pequena Praça Römerberg, com alguns prédios típicos reconstruídos depois da total destruição da Segunda Grande guerra.
Depois de caminharmos muito atrás de uma indicação da recepcionista do hotel, acabamos em um restaurante muito tradicional e centenário a poucos metros da Praça Römerberg. Foi para fechar nossa viagem à Alemanha em alto estilo. Histórico!
Ao voltar ao hotel, o nosso mestre apreciador do bom vinho fez reconhecimento das melhores casas de vinho para, na manhã seguinte, retornar às compras da sua seleta lista.
Na manhã do dia 6, fomos atrás de loja de acessórios para bicicleta, depois eu fiquei pelo hotel para organizar minhas coisas, enquanto a turma continuou nas compras dos últimos presentes e vinhos.
No início da tarde, ainda fomos a uma grande loja de acessórios para moto e na loja da BMW, esta foi uma decepção, pelo pequeno espaço, poucas opções e pelo atendimento ruim.
No meio da tarde, o nosso amigo CP queria se despedir dos parentes, e nós o acompanhamos até uma pequena cidade próxima a Frankfurt, na mesma direção do aeroporto onde entregamos o carro.
A recepção da tia do CP, Srª Margarida, brasileira que mora por lá há mais de 40 anos, sua filha Silvia e netas Leona e Marila foi muito bacana. As duas netas, Leona e Marila, aos poucos se soltaram e não demorou já estavam no colo e fazendo fotos.
Mas nosso amigo acabou pagando mico com a tia, pois deixou de levar um bolo para o chá da tarde. Ela se comprometera com uma torta e o chá. Ela passou um “pito” na brincadeira séria de alemão, e ele foi salvo pela prima, que desconfiada levou um bolo. Outro motivo para boas brincadeiras enquanto aguardávamos no aeroporto o embarque ao Brasil, às 22 h.
Assim, terminou nossa viagem por alguns países do leste europeu. Um grupo experiente de amigos que compartilham a mesma paixão pelas duas rodas. O planejamento básico que realizamos foi eficiente em todos os sentidos, pois, com o pouco tempo de que dispúnhamos, conseguimos cumprir o roteiro principal proposto sem qualquer incidente que embaçasse a viagem.
Nossa decisão de locar as motos diretamente e realizar toda a viagem com nossa organização também se verificou positiva, pois fomos os senhores de nossos destinos por todo o tempo, parando onde queríamos, curtindo o caminho, as cidades, alterando rotas, combinando nossos horários, enfim, tudo de que um motociclista gosta, a liberdade.
Por fim, quero registrar minha imensa gratidão a todos os amigos do grupo, que compreenderam minha situação atual e foram tolerantes e parceiros em muitos momentos de minhas preocupações e reflexões insondáveis. Obrigado a todos pela boa experiência que vocês me proporcionaram viver. E, como já disse, eu estava precisando! Voltei renovado e confiante em um futuro longo, de vida e de novas viagens e aventuras.
Até lá, até lá, até lá!

Expedición Carretera Austral e Ruta 40 - 2008

Expedición Carretera Austral e Ruta 40 - 2008

Esta viagem foi concebida em pensamento, no mês maio de 2008, juntamente com o amigo e irmão Edson Steglich, busquei informações e adquiri uma moto XT 660, (o Edson já possuía uma), pois entendíamos que seria a mais apropriada para a viagem. Nossa pretensão era percorrer por completo a Carretera Austral e boa parte da Ruta 40, na Patagônia Argentina. Para oferecer uma pequena amostra do que foi a viagem, segue um resumo dos post que enviei quando estávamos na estrada…

Na partida de Santa Maria, dia 15-11-2008, tivemos a presença completa das nossas famílias, dos amigos, Irio e Clery, e a felicidade da companhia do casal Cunha e Tânia até Uruguaiana, onde fomos recepcionados pelo mano Luciano & família. E que recepção! Um gostoso churrasco. Valeu, mano! Obrigado ainda pela carta verde…
Entramos na Argentina e chegamos à Federal, onde pernoitamos, pois a concessão da tradicional "carta de apresentação" dos amigos Gendarme atrasou-nos um pouco.
Seguimos até Alta Gracia para conhecer o museu Casa de Che Guevara. Muito legal, ele foi um grande motociclista ao seu tempo… chegamos a Carlos Paz, uma cidade pequena, mas aconchegante, que eu já conhecia.
No terceiro dia, pernoitamos em San Juan de Jáchal, mais ao norte. Aí tivemos a notícia de que o passo Água Negra estava fechado em razão de ter nevado, na sexta-feira e sábado anterior. Com paciência e bons contatos, conseguimos autorização da Gendarmeria Nacional para chegar até o Passo Água Negra, um dos objetivos da viagem. Agradecemos ao Suboficial Guevara pela atenção. Uma estradinha de rípio e de muitas curvas nos levou até 4.874 m.s.n.m. Bem, as fotos justificam o esforço para chegarmos até os penitentes, de extraordinária beleza.
Obras de recuperação na estrada nos fizeram retornar da divisa com o Chile e seguirmos por caminhos de rípio para o Passo El Libertador, costeando a Cordilheira até Uspallata.
Em Santiago, fomos recebidos pelo amigo BR's Juan Arenas. Guiados por ele, compramos pneu para a moto do Edson e realizamos manutenção das mesmas. À noite, um jantar preparado pelo anfitrião regado com bom vinho. Obrigado, amigo!
Seguimos em direção ao Sul até Talca, (onde pernoitamos) para, no dia seguinte, chegarmos ao Passo Pinho Hachado. Retornamos à Argentina para pernoitamos em Zapalla. Depois, a Junin de los Andes e voltamos ao Chile pelo Passo Mamuil Malal (ou Tromen), onde conseguimos avistar o vulcão Lanin ainda com muita neve. Belas fotos rolaram por lá. Visitamos Pucon, mas o vulcão Villarica estava completamente encoberto por nuvens. Pernoitamos em Lincan Ray no Hotel Becker à beira do Lago Calafquen.
Pela manhã, tomamos um café sinistro, servido por um japonês muito esquisito e fomos direto a Osorno pela via Panan. Por uma estrada secundária, chegamos à cidade pitoresca de Puerto Octay, contornamos o Lago Llanquihue, experimentando mais 35 km de rípio, passamos pelo vulcão Osorno que também estava encoberto. Lugares belíssimos à volta do lago, passamos por Ensenada e almoçamos cordeiro assado próximo a Los Riscos. Depois, Puerto Varas, uma bela cidade de origem alemã, que nos lembra a Serra Gaucha, e chegamos a Puerto Mont, por uma estrada nova, secundária, mas muito interessante, boas curvas e paisagens com muito verde.
Na manhã do dia seguinte, pegamos o pneu comprado pelo Edson na transportadora e trocamos o óleo das motos. Com o comércio abrindo às 10 horas, nossos planos para o dia sofreram atraso. Trocamos de roupa no hotel e fomos para a Ilha de Chiloe, passando por Ancud, Castro até chegarmos a Quellón, onde fomos até o marco zero da via Panan. Fotos para registro da cidade de Quellón e porto, ambos muito desorganizados.
No retorno, passamos em uma pequena propriedade rural, compramos salmão defumado, após uma ótima degustação, e retornamos a Puerto Mont, chegando quase à meia-noite.
Após o sono dos justos, seguimos nossos planos, conforme contato com os Carabineiros de Hornopiren, que conseguiram transporte de barco privado para passarmos as motos para Caleta Gonzalo.
Começamos a descer a Carretera Austral desde o km zero em Puerto Mont e, ao chegarmos a La Arena para travessia a Pueiche com o trasnbordador, fomos informados, pelo dono do restaurante ao lado do porto e por um guia de turismo, de que a estrada de Caleta Conzalo até Chaiten estava bloqueada em razão da queda de três pontes.
Retornamos a Puerto Mont e checamos as informações na Oficina de Turismo, localizada na Praça de Armas. Depois de confirmadas as informações, nos deram notícias de que o próximo transbordador para Chaiten só sairia em 3 dias. Fomos conferir na empresa e, para nossa boa surpresa, havia um para o dia seguinte, às 19 horas. Aproveitamos o dia seguinte para conhecer um pouco mais Puerto Mont, o que foi muito bom, pois a cidade possui muitos atrativos, com ótima infraestrutura de serviços.
Quando saíamos do hostal para levar as motos até o embarque, chega o motoviajante David, um sul africano com uma moto BMW 650, vindo do Alaska. Ele comentou que pretendia descer parte da Carretera Austral e seguir a Ushuaia nos próximos dias. Conversamos um pouco, e rapidamente ele mudou de idéia e foi tentar uma passagem.
Encontramos novamente o David no embarque. Ali começou uma boa amizade, pois ele seguiria conosco por vários dias. Aproveitamos para trocar ótimas informações sobre muitos lugares.
A viagem de Puerto Mont a Chaiten, com o transbordador, é de 12 horas, com bom espaço para os passageiros e motos. Tivemos que dar umas dicas aos marinheiros de como se fazem as amarras das motos, pois a do Edson quase caiu. O incrível foi não conseguirmos tomar café no transbordador. A cafeteria fechou às 20 h e 30 min e não abriu mais. Sorte que tínhamos nosso salmão defumado e refrigerante e, com as bolachas do David, ficou perfeito.
Desembarcamos com chuva em Chaiten e fomos direto fazer algumas fotos do que era possível, pois o tempo estava muito fechado e não pudemos ver muita coisa, especialmente o vulcão e as montanhas. Realmente foi uma tragédia aos nossos planos. Toda a população ainda está deslocada para as cidades próximas, Puerto Mont, Castro, Ancud, Quellón etc. O governo só permitiu o retorno de 20 famílias para fazer alguma manutenção, pois não existe água e nem energia elétrica, nada funciona por lá.
Seguimos pela Carretera Austral com os primeiros 24 km de asfalto, depois muito rípio, chuva sem trégua o dia todo, e a fome bateu na expedição. Felizmente, depois de uns 60 km, encontramos um hotel restaurante próximo a um grande lago, onde tomamos um ótimo café, mas muitíssimo caro: seis mil pesos!
A chuva continuou sem parar, e a estrada ficava, a cada km, pior, muita obra, muita queda de barreira, pouca visibilidade, sem poder parar para fazer fotos, enfim, um trecho perdido, nem olhar muito para o lado era possível, pois o rípio molhado não perdoa…
Abastecemos as motos em La Junta, no o posto Copec, sem cobertura, na chuva mesmo, colocando a mão junto ao bocal do tanque para não entrar água… Chegamos exaustos, com frio e molhados, a Manihuales. O Edson ficou completamente molhado, dos pés à cabeça, só suportou porque o alemão é duro na queda e muito rústico… Eu já estaria morto! A roupa especial e as botas do David, adquiridas nos EUA, também não aguentaram. A água passou.
Conseguimos uma pousada muito simples, mas com um precioso banho quente. O Edson teve tempo de quase incendiar tudo, quando colocamos fogo no fogão a lenha e rapidamente secamos as roupas e botas. A sala do café da hospedagem ficou a maior bagunça…
No dia seguinte, ainda com tempo feio e chuviscando, chegamos a Puerto Aisen e Puerto Chacabuco. Muito legal a cidade, pena que a chuva não permitiu boas fotos. O curioso é que, mesmo com a chuva, os chilenos caminham na rua e cortam grama, naturalmente, sem proteção de guarda-chuva, muito estranho, levando-se em consideração o frio e a chuva.
Seguimos até Coihaique, capital da região, cidade pequena, ótima estrutura de serviços, limpa e organizada. Após um tour, aproveitamos para lanchar e telefonar. O frio continuou, mas a chuva deu uma trégua, embora as informações fossem de que deveria chover até o sábado. Entramos no povoado de Puerto Murta para abastecermos e fotografar o bosque de árvores secas.
Chegamos a Puerto Rio Tranquilo enfrentando a Carretera Austral com muito rípio solto, sem trilho dos carros, com as máquinas nivelando a estrada, para nos ajudar e dar as boas-vindas. Mas chegamos! Encontramos rapidamente o ótimo Hostal Los Pinos (para a região) e jantamos.
O dia amanheceu com céu de brigadeiro e seguimos para Villa O'Higgins, passando por Cochrane com trecho de bom rípio. Na chegada à cidade encontramos um casal de australianos, cada um com sua moto BMW 650 Dakar que iam em direção a Chile Chico para voltar à Argentina. Abastecemos e conferimos, com os Carabineiros e o frentista do posto de serviço, a situação da "benzina" em Villa O'Higgins, distâncias, estrada etc. Ambos afirmaram que a benzina se vende por lá.
De Cochrane, partimos para Pueto Yungay, passando por um trecho de 30 km terrível, ruta estreita, curvas fechadas e rípio fofo. Tráfego quase zero. Em Puerto Yungay, a Carretera Austral é cortada por um canal de degelo do Campo de Hielo Sur. Uma hora de travessia com o transbordador que é gratuito. A paisagem é atraente, para todo lado uma montanha com o topo nevado, cascatas e muito verde.
Da travessia até Villa O'Higgins são mais 100 km com a estrada ainda mais estreita, na verdade, um caminho entre as montanhas, lagos, precipícios, vento e frio. Como queríamos chegar ainda de dia, não paramos muito para as fotos. Chegamos à Villa O'Higgins, às 21 h e 15 min, ao entardecer. Imediatamente parei a moto na placa de boas-vindas para registrar a realização de mais um sonho. Ficamos no Hostal El Mosco, e, antes mesmo de nos acomodarmos, sugeri que pretendia resolver a questão do abastecimento das motos. A gasolina estava em falta na Villa, tentamos em toda parte, inclusive com os Carabineiros. Acabamos conseguindo com sua vizinha, dona do restaurante em que havíamos jantado, a Valkiria, que tinha um estoque de 60 litros. Essa senhora nos tirou do sufoco, pois a benzina só chegaria na terça-feira.
No domingo pela manhã, fomos até o final da Carretera Austral, mais 7 km, onde encontramos outro pequeno porto e a placa indicativa do último km da estrada que ainda é um mito e tem o nome oficial de Camino Longetudinal Austral Presidente Augusto Pinochet. Fotos para registro e retorno à Villa que possui, aproximadamente, 250 pessoas, fica em um pequeno vale cercado de montanhas com topo nevado. A infraestrutura está melhorando, novos empreendimentos podem ser notados. Até disponibilizaram internet "we fi" liberada em toda Villa, que ainda estava em teste havia uma semana.
Na segunda-feira, partimos de Villa O'Higgins passando por Caleta Tortel, uma vila pitoresca, não existem ruas, somente em passeios para pedestres com escadas por todo lado. Fica em uma báia cercada de morros. Imaginem, é subir e descer na pernada… Comemos um salmão com salada curtindo aquele visual diferente. O estresse foi a estrada, 40 km do pior rípio solto, recentemente nivelado pela máquina.
Para chegarmos a Passo Roballos, tocamos meio direto, só paramos para abastecer em Cochrane.
Deviam mudar o nome daquele Passo para "roubada". Uma estrada de campo, atravessando estâncias, cercas, quase nada de sinalização e sem vestígios de tráfego de veículos, apenas as marcas dos cascos dos animais, com trecho de 25 km quase intransitáveis de tanta pedra. A poucos km da aduana (posto dos Carabineiros), o David, já cansado, queria acampar, receoso de pilotar desde a manhã. Acabamos por chegar até a aduana onde fomos gentilmente recebidos pelos Carabineiros que nos cederam uma casa para passarmos a noite. Permitiram o banho e serviram um bom café. Deixamos nossa marca com adesivo e oferecemos o troféu relativo à nossa aventura.
Quando nos preparávamos para partir no dia seguinte, um Carabineiro veio ao meu encontro e me ofertou o patch oficial dos Carabineiros que utilizava na farda. Um gesto inesquecível de fraternidade, de gentileza com os motociclistas e aventureiros, que apagou todas as lembranças de dificuldades…
Após 10 km da Aduana do Chile, encontramos a Gendarmeria da Argentina para mais um carimbo de reingresso no país. Continuamos por "caminhos' ripiados pelos campos da Patagônia Argentina, utilizando mapas e GPS para chegarmos à Ruta 40. Comecei a sentir um forte mal-estar que me deixava com tonturas. Abastecemos em Bajo Caracoles e aproveitei para tomar uma coca-cola e comer bolachas. Chegamos com dificuldade a Tamel Aike, às 16 horas, na sede da empreiteira que pavimenta a Ruta 40 e ali ficamos. Ótima recepção do encarregado da empresa, banho quente, café e jantar "free". O churrasco do jantar não desceu bem e voltou… a partir daí foi só bolacha e chá de boldo por três dias.
No dia seguinte, partimos com destino a El Calafate. A Ruta 40 nesse trecho está horrível, abandonada… muito difícil. Abastecemos na Estância La Angostura para chegarmos com folga até Tres Lagos. Nesse trecho encontramos muitos aventureiros e participamos de um "concerto mundial" com representante de uns seis países em pleno rípio, vento e frio da mística Ruta 40. Quase todos com motos 650 cc.
Antes de Tres Lagos socorremos o Sueco que havíamos encontrado em Santiago, com o pneu dianteiro da moto Kavazaki 650 furado. Seguimos juntos até Tres Lagos. Em El Calafate, ficamos todos no mesmo Hostal da viagem anterior e mesmo quarto. Ainda na chegada lavamos as motos que estavam tomadas de poeira.
No outro dia, passeio na cidade e fomos com as motos a Perito Moreno. A estrada agora está asfaltada e contínua tudo muito show. Foi em El Calafate que nos separamos do David, ele sairia mais tarde e ficaria uns três dias no Parque Torres del Paine. O David Collett (www.vagamoto.com) integrou a Expedición Carretera Austral e Ruta 40 por dez dias. Foi um grande parceiro de viagem, ótimo motociclista, solidário e amigo.
Fomos direto a Puerto Natales cruzando mais uma vez para o Chile pelo Paso Dorotea e nos dirigimos a Torres del Paine enfrentado vento forte. No setor de recepção, informaram-nos de que as torres estavam encobertas e que o tempo não mudaria por três dias. Mais uma decepção, embora soubéssemos que esses três dias eram muito relativos, enfim, visitamos a Cueva de Milodon e seguimos a Puerto Natales, cidade portuária que vive do turismo. E eu continuava na sopa e chá …
A viagem para Punta Arenas também foi com muito vento. Alguns ciclistas não conseguiam nem empurrar as bicicletas, outros acampavam nas baixadas, às margens da estrada para se proteger do forte vento. A chegada a Punta Arenas também foi com vento insuportável e logo fomos garantir o embarque a Porvenir para o dia seguinte. Demos uma passadinha na Zona Franca e fomos para o hotel onde deixamos as motos e saímos a pé, pois não era possível ficar com moto parada ou rodar em baixa velocidade. O transbordador saiu às 9 h 30 min do dia seguinte para Porvenir. A chegada foi complicada em razão do forte vento que atingia a região. A estrada de rípio até San Sebastián foi a melhor que já andei até hoje, sensacional! Depois foi um sufoco o vento até Ushuaia, que foi amenizado com a boa recepção do frio depois do Lago Fagnano. No transbordador, havíamos encontrado quatro motociclistas argentinos e seguimos juntos até Ushuaia. Um deles tem uma irmã que mora lá e havia reservado hostal, onde também conseguimos acomodação. A primeira impressão foi que a cidade cresceu muito desde quando estivemos lá em 2004. Seguramente está mais bonita.
Segunda-feira, feriado em Ushuaia. Aproveitamos para passear, ir novamente à Bahia Lapataia, e depois conhecer os amigos virtuais, Luiz Maria e Rose, do Latitude 54 Sur. Casal simpaticíssimo e, por coincidência, o Luiz estava de níver. Eu havia levado um livro para presenteá-lo, ficou tudo certo… Ele havia reservado camisetas e adesivos do 1º Encontro de Motoviajeiros do Fim del Mundo que ocorrera duas semanas antes de nossa chegada.
À noite, convidou-nos para jantar com a família em um bom restaurante. Eu já me sentia melhor e com fome!
A terça-feira foi reservada para dar manutenção as motos e, à noite, visitamos mais um amigo, também motociclista, o Dr. Herman, médico pediatra, por indicação do estimado amigo motociclista e escritor, Dr. Guillermo Godoy. Como constava no planejamento da viagem, fui até Puerto Willians, o Edson acabou desistindo. A informação local era que não seria possível levar a moto, mas desconfio de que se tivesse mais tempo, eu conseguiria. De Punta Arenas é possível, mas é necessário dois dias só para ir. Assim, cheguei de barco à cidade mais Austral do continente, mais um objetivo da viagem alcançado. Claro que os amigos argentinos não aceitam, pois insistem que é Ushuaia, no entanto, as coordenadas geográficas que marquei não deixaram dúvidas.
Com meu retorno a Ushuaia, na quinta-feira ao meio-dia, pegamos a estrada por volta das 14 horas. Chegamos a Cerro Sombreiro, onde ficamos em um ótimo hostal à beira da estrada.
De San Sebastián seguimos pela estrada que leva a Porvenir, mais ou menos 50 km e depois se pega a direita. Estrada ótima, sem tráfego e sem muita poeira.
Bom café da manhã e logo pegamos a primeira balsa do dia para a travessia do Estreito de Magalhães, às 9 h 15 min. Mais uma fronteira e ingressamos novamente na Argentina, onde o vento da Patagônia foi implacável. Sem grandes sustos, chegamos a Fitz Roy e pernoitamos. No dia seguinte, fomos tomar o café da manhã em Caleta Oliva, seguimos pela Ruta 3 até Comodoro Rivadavia, onde rumamos para oeste, pela Ruta 26, passando por Sarmiento para chegar à tardinha em Esquel. Um dia de 800 km rodados com vento regular, muitas retas e um calor escaldante. Alguns desvios para estradas de rípio "safado", aqueles provisórios ao lado da estrada. A região é uma das mais ricas em campos de petróleo, foi só o que vimos por lá.
De Esquel seguimos viagem para uma região muito badalada e turística, passando por El Bolson e Bariloche, onde chegamos no domingo antes do meio-dia. Bom almoço no restaurante, El Nuevo Gaúcho, ótimo atendimento e excelente assado.
À tarde, passeamos para fazer algumas fotos e seguimos para Villa Angostura. Que bela cidade, muito aconchegante e boa recepção aos viajantes. Encontramos outros motoviajeiros, como o Julio, um argentino-autraliano, que atualmente mora em Sydney. Hospedamos-nos na Hosteria do ACA, excelente, uma das melhores da cidade, 3 estrelas e a preço justo.
No outro dia, passamos por San Matin de los Andes, onde enfrentamos nossos últimos km de rípio muito solto em razão de obras, 56 km levantando muita poeira! Região de montanhas, lagos, belas paisagens, curvas acentuadas e nova vista do vulcão Lanin coberto de neve. Tudo lindo, mas creio que com neve seria mais interessante. Optamos por ficar em uma cidade desconhecida até então, Tranque Lauquen. Linda cidade, porte médio, muito organizada, ótima infraestrutura de serviços, limpa. Quando partíamos do hotel, o argentino Alberto nos reconheceu pelo adesivo do Brazil Rider's. Um papo rápido, pois se aproximava um temporal, mas foi suficiente para sabermos da amizade com nosso sobrinho e Conselheiro do BR's – RS, Luiz Felipe de Passo Fundo. Conseguimos escapar da chuva enfrentando um forte vento frontal que dificultava a pilotagem, para chegarmos a Buenos Aires às 16 horas com forte calor. Fomos direto comprar passagem para a travessia à Colonia del Sacramento com o Buquebus e ainda sobrou tempo para comprar uma surpresa para o Fellipe.
O Edson não conhecia Colonia del Sacramento, assim que ocupamos a manhã do dia seguinte para um tour pela parte histórica da cidade e ruínas da Arena de Tourada.
Em nossa passagem por San José, visitamos o amigo Roberto Cerdena, um grande motoviajeiro que prestigia o Mercocycle há 11anos, em Santa Maria. Foi uma ótima ideia, ele e a Blanca ficaram felizes com nossa visita e nós mais ainda em poder conhecer seu museu particular que conta a sua vida de esportista e motociclista. Sensacional!
Após tomarmos um sorvete com os amigos, o Roberto nos acompanhou até a saída da cidade e seguimos viagem para Rivera, chegamos às 21 h 30 min para pernoitar. Meu pensamento relembrava cada momento dessa grande motoaventura em meio à forte saudade da família e dos amigos.
Foi uma viagem inesquecível, de grande intensidade, de estradas que exigem muito do piloto, mas que nos oferece a verdadeira liberdade para apreciarmos lugares e paisagens únicas. Foram 14.230 km rodados, dos quais 2.515 km em estradas de rípio e 23 aduanas. Mais um projeto realizado com êxito e que já me remete a boas lembranças.
Por Renato Lopes

Uma Aventura pela Austrália - 2007

Uma Aventura pela Austrália - 2007

O sonho de realizar essa aventura teve início no Reveillon 2001 quando eu e minha família visitamos meu irmão, Alvaro Lopes, que vive em Sydney (Austrália) desde 1989. Ali se manifestou, pela primeira vez, meu interesse em conhecer melhor o país (o sexto do mundo em tamanho e a única nação da Terra que é uma "ilha continente"). A melhor maneira de fazê-lo, é claro, seria percorrê-lo sobre duas rodas, interagindo com suas belezas naturais, cultura e hábitos cotidianos.
A idéia inicial era percorrer 7.000 km de motocicleta, passando por cinco estados australianos. Com o roteiro definido em outubro de 2006 – e o encaminhamento dos procedimentos de visto e aquisição de passagem – solicitei a meu irmão que reservasse uma moto BMW GS 1200 para duas semanas, no período e 03 a 16 de janeiro de 2007. Vale ressaltar que a diária de moto na Austrália é mais cara que na Europa e nos EUA. O Alvaro conseguiu um período de férias para me acompanhar na viagem – só não houve tempo para fazer a carteira de habilitação australiana para motocicleta, o que não foi empecilho para me acompanhar como garupa.
Chegando a Sydney, no coração da Austrália, logo notei, em familiares e amigos próximos, um ar de espanto e preocupação quando falei sobre o roteiro (no qual estava prevista a saída da costa e o avanço por regiões desérticas). Quase toda a concentração populacional da Austrália está na costa. Avançando-se 200 a 250 km para dentro do continente, avistamos o início de uma grande região desértica onde a população se resume a pequenas cidades e povoados.
Antes de me lançar à aventura de pilotar uma motocicleta por estradas australianas, procurei me familiarizar com o trânsito da mão inglesa, utilizando um carro e uma camioneta. Parece fácil – mas não é. A condução do veículo em si não é diferente; o que preocupa, mesmo, são nossos reflexos. Já que a atenção passa a estar invertida e concentrada do lado direito. Mas nada que uns três dias de prática, a gente não se adapte.
CAMBERRA E MELBORNE
No dia da partida, após uma rápida familiarização com a moto (no Brasil, piloto uma Suzuki V Strom), iniciamos a jornada após o meio-dia.
Nosso primeiro objetivo: conhecer Canberra, capital da Austrália. Rapidamente, pegamos a autopista que nos levaria a Canberra, a Highway Hume 31. É uma estrada de primeira, que oferece todo o conforto e segurança aos usuários – mas algo me frustrou, inicialmente. A velocidade máxima permitida, mesmo nas auto-estradas, é de 110 km/h. E eu com uma máquina espetacular nas mãos…
Diferentemente do que ocorre no Brasil, os motoristas de lá respeitam esse limite – seguramente, em razão da cultura, das inúmeras câmaras de controle de velocidade ao longo da pista e da rigidez da legislação.
No caminho rumo ao sul, um cenário de muitas fazendas – e muita seca para aquela época do ano. O céu, de um azul lindíssimo e salpicado por nuvens brancas, amenizava o sol abrasador.
Na primeira parada em um complexo de serviços – (para uma esticada e para beber água), conhecemos um casal que, a bordo de uma Harley-Davidson, também estava a caminho de Canberra. Um papo rápido e algumas fotos, depois, partimos e rodamos juntos por algum tempo, até a nossa próxima parada (para um novo clique em um vale grandioso, com uma vista que se perdia no horizonte).
Chegamos a Canberra antes das 17 horas, o que nos permitiu conhecer os principais pontos turísticos da cidade – como o Parliament House, cuja fachada é adornada por mosaicos aborígines, além do Australian War Memorial, Higt Court, Telstra Tower, Old Parliament House e o centro. A cidade se destaca pelo planejamento, pela beleza da arquitetura, pela limpeza e por seus milhares de jardins e parques, para uma população de, aproximadamente, 300 mil habitantes.
No dia seguinte, retornamos para a Highway Hume 31, que nos levaria até Melbourne (capital do Estado de Victoria). A estrada continuava ideal para se rodar de moto – mas observamos, na entrada do Estado , que as placas de advertência indicando a existência de câmaras de velocidade haviam sumido. O cuidado com a velocidade passa a ser outra preocupação, além da mão inglesa. Próximo a Melbourne, dei a primeira "mancada" ao me aproximar de uma rótula ampla, como todas na Austrália: não olhei para a direita e foi com a intervenção do meu anjo de guarda que não provoquei um acidente. Era o segundo dia de estrada – e meu "condicionamento" à mão inglesa ainda não estava completo…
A região mais ao sul do estado, em razão da seca prolongada, foi a que mais sofreu nesse verão australiano – com incêndios ininterruptos por mais de dois meses, consumindo centenas de hectares de mata de eucalipto. Este fator fez com que desistíssemos de rodar pela região.
Melbourne é considerada a capital cultural do país. Segunda maior cidade da Austrália, ostenta uma elegante e charmosa arquitetura e várias opções de diversão. Os destaques são os cafés, bistrôs e ótimos restaurantes.
Deixamos Melbourne na manhã do dia seguinte com destino a Adelaide (capital do Estado de South Austrália), mas sabíamos que seria preciso fazer um pit stop no caminho, pois seriam 1.220 km a percorrer em um dia que prometia ser muito quente.
ADELAIDE
Agora rodávamos pela Highway Western A8, em uma pista ótima e com retas intermináveis. Mas, naquele dia, nem tudo seria perfeito: o calor era insuportável e não conseguíamos ficar mais do que dois minutos parados sob o sol. Parecia estar "cozinhando" – e não era para menos: nos encontrávamos bem embaixo do maior buraco da camada de ozônio do planeta. Na Austrália, o câncer de pele tem a sua maior incidência do mundo.
Após o meio-dia, paramos para um lanche leve, como de costume em viagens de motocicleta.
O tempo começou a mudar e os ventos fortes, vindos do oeste, dificultavam a pilotagem. Por vezes, me forçavam a invadir a pista da direita. Tudo ficava mais difícil e perigoso quando precisava ultrapassar (ou quando éramos ultrapassados) os titânicos "treminhões" que rodam pelas estradas australianas. Foram quilômetros de angústia e de preocupação – sem mencionar a luta para manter a moto equilibrada, muito pesada para aquelas circunstâncias.
Ao passarmos por uma região vinícola, na localidade de Great Western, realizamos uma parada estratégica no Garden Gully Wine, um tipo de quiosque para degustação e venda de vinhos no meio do nada. Mesmo localizado em uma região rústica, o lugar oferece conforto de primeiro mundo. Uma simpática senhora australiana atende aos visitantes com simplicidade e muita atenção. Enquanto degustávamos um bom vinho, ela nos disse que o calor escaldante se devia à estiagem de mais de oito meses.
O vento continuava a soprar forte – e eu já estava ficando estressado de pilotar naquelas condições. Ao chegarmos a Kaniva, uma pequena cidade na região do Little Desert (por volta das 16 horas), procuramos um hotel e ali resolvemos ficar. Trata-se de uma típica cidade do interior, com menos de 1.000 habitantes, apesar da ótima infraestrutura básica. Instalamo-nos em um motel.
O proprietário do estabelecimento nos informou que o forte vento era reflexo de uma tempestade que varreu boa parte da costa do Western Austrália, banhada pelo Oceano Índico. Um fenômeno comum na região, que destruiu muitas propriedades e plantações. Para relaxar, fomos até um aconchegante pub local degustar a boa cerveja australiana.
Permanecemos em Adelaide um dia e meio para conhecermos a bela cidade e região vinícola nas montanhas. Adelaide é linda, limpa e chique – ali, é comum ver belas Ferrari e Lamborguini rodando pelas amplas avenidas. Depois do nosso tour pela cidade, fomos para o Pub Stage, um dos points mais movimentos do local, em busca de um "big copo" de cerveja. Decidimos que, no dia seguinte, daríamos uma "esticadinha" até uma região de montanhas próxima.
O domingo amanheceu nublado. Partimos às 9 horas, rumo às montanhas, e encaramos um percurso de, aproximadamente, 150 km em meio a curvas, pequenas cidades e montanhas que lembram muito a Serra Gaúcha, onde até o clima é idêntico. É o passeio predileto dos motociclistas de Adelaide. Paramos para tomar um gostoso café e comer um folhado com salsicha na calçada de um estabelecimento típico do interior, com um ar bucólico, mas de lindíssimo visual. O passeio é imperdível!
CANGURUS NA ESTRADA
Os dias seguintes foram reservados para desvendar e sentir as emoções de rodar pelo interior, o chamado Outback australiano. Seguimos na direção norte do país, passando pela Mount Lofty Range, onde se inicia a região desértica e mais inóspita, com temperatura acima de 43º C.
O que chama a atenção no trecho de mais de 600 km até Broken Hill, cidade histórica, aconchegante e com ótima infraestrutura para turistas, é a quantidade de cangurus (um dos símbolos da Austrália) mortos, ao longo da estrada, atropelados por caminhões ou carros. Sem medo de errar, num trecho de 240 km desviamos de mais de 150 cangurus mortos, de todos os tamanhos – alguns chegavam a pesar mais de 100 kg. O exagero na quantidade de placas de advertência indicando a presença de cangurus nos próximos quilômetros, portanto, fazia sentido. Diminuímos a velocidade e nos mantivemos atentos a ambos os lados da pista. Os carros que circulam na região são dotados de pára-choque ao estilo dos caminhões. Felizmente seguimos sem grandes sustos.
Reservamos a tarde para explorar Broken Hill e até encontramos a "Brazil Street", que tratamos de registrar em fotos. Prosseguimos no dia seguinte, sempre rodando pelo interior, pela Barrier Highway 32. Pudemos conhecer várias cidadezinhas – a sua maioria, com menos de 500 habitantes – em cujas imediações há um bom número de aborígines. Tínhamos a informação de que costumam solicitar dinheiro aos visitantes da região. Não fomos incomodados por eles e, em nenhum momento, nos sentimos ameaçados – mas constatamos que, antes do meio-dia, muitos já se estavam embriagados.
Talvez isso ocorra porque não se sentem estimulados a trabalhar – o governo oferece a cada família aborígine um tipo de auxílio mensal (talvez seja a forma que o Estado encontrou para se desculpar pelo extermínio da cultura aborígine).
Logo alcançamos a Newell Highway 39 e, depois, a Gore Highway 85, que nos levaria à pequena Noosa, última cidade de Sunshine Coast, no Estado de Qeensland. É uma praia paradisíaca, para turistas dispostos a pagar caro pelo verde exuberante, badalação de primeira e restaurantes, cafés, lojas e hotéis charmosíssimos.
Depois de um dia em Noosa, iniciamos a descer pela costa Sul do Oceano Pacífico, onde conhecemos muitas praias, até chegarmos a Brisbane, capital de Qeensland (que combina a vitalidade dos centros modernos com uma atmosfera característica de cidade do interior).
É imperativo fazer uma parada em Gold Coast – que, além das praias deslumbrantes de areias brancas e águas cristalinas, tem os encantos da Surfers Paradise, um verdadeiro playground em frente à praia. A noite é movimentada, com inúmeras opções de restaurantes, pubs e casas de shows sofisticadas, onde é possível curtir um bom Jazz.
NOVAS PAISAGENS
Um passeio pelas estonteantes curvas da Tamborine Mountain, distante 45 km da costa, foi mágico e compensador. Do alto da montanha, consegue-se ver toda a costa do Pacífico da região de Gold Coast. É claro que não dispensamos uma boa degustação de vinhos da região e um gostoso café, servido em um típico chalé inglês.
Seguimos em direção a Sydney, rodamos mais de 200 km pelas montanhas, sempre em boas estradas e avistando belas paisagens e muito verde por todos os lados. Retornamos à costa pela Pacific Highway 1, com passagens por Byron Bay, Lennox Head, Ballina, Urunga, Nambucca Heads, Port Macquarie, Nelson Bay, Newcastle até o retorno a Sydney.
Ao todo, foram 5.350 km rodados em um "tapete de asfalto". E, apesar de ter procurado um único "buraco" para fazer uma foto, não pude encontrá-lo. Preferimos reduzir a quilometragem rodada para privilegiar uma exploração maior das cidades e da cultura australiana.
Ao longo de duas semanas, viajamos em uma moto BMW GS 1200 que só exigiu combustível e nos transmitiu muita confiança, mesmo na região desértica (quando rodávamos vários km sem cruzarmos outros veículos e, sequer, pequenos povoados).
O abastecimento não é problema na Austrália – e a gasolina é mais barata que no Brasil. Esteja o viajante onde estiver, sempre haverá uma estação de serviço e alguma infraestrutura de apoio em um raio de 200 km – mesmo no deserto. Muito convenientes, por exemplo, são as "rest areas" – área de repouso e apoio, nas quais há sanitários limpos, papel higiênico, energia solar, rampa de acesso para deficientes, abrigos com mesas para lanches, bancos, churrasqueira, reservatório com sistema de coleta de água da chuva, recolhimento de lixo, etc.
O que mais incomoda quando se viaja no verão australiano é o calor, simplesmente escaldante. Alguns motociclistas e policiais com os quais conversamos nos alertaram sobre as elevadas temperaturas nessa época do ano, recomendando o inverno para se viajar pelo deserto. O uso de protetor solar é obrigatório, assim como beber muita água. De fato, fazer esse roteiro no inverno é muito mais confortável, pois a temperatura fica próxima dos 20º.
A segurança na Austrália – em grandes e pequenas cidades e na estrada – é total. A polícia muita bem aparelhada pode ser notada em toda parte, inclusive nas vias que cortam o deserto. Contudo, o grande diferencial é a tecnologia das câmaras que vigiam 24 horas os movimentos de pessoas e veículos.
Os estados mais desenvolvidos são New South Wales, Victoria e South Austrália, onde se concentram os parques industriais e áreas produtivas de carne e grãos. Já que permaneci até o dia 11 de fevereiro no país, pude conhecer melhor a grande Sydney, assim como a região de Blue Mountains, onde se contempla uma paisagem de canyons, montanhas, florestas selvagens e cachoeiras.
São tantos os atrativos da maior e mais antiga cidade da Austrália que é difícil enumerá-los nesse pequeno relato. Mas posso destacar a arquitetura ultramoderna do centro econômico e financeiro da cidade, os incontáveis parques, as belezas naturais preservadas, a badalação da vida noturna, a gastronomia internacional, as belas praias, o Opera House, o Darling Harbour e a Sydney Tower. É uma cidade simplesmente incomparável e de face multicultural, além de ser acolhedora e cosmopolita.
Meu conselho final aos aventureiros: incluam a Austrália em seus planos de motoviagem. É um lugar único, que merece ser visitado!
Por Renato Lopes

Motoviagem por Sete Estados

Motoviagem por Sete Estados

Viagem a sete estados brasileiros (RS, SC, PR, SP, MG, GO e DF)
Um objetivo, um sonho e parceria à altura, assim nasceu a idéia de fazermos uma viagem, destas inesquecíveis, aproveitando a realização do Motocapital em Brasília e visitar o amigo gaudério Edson Steglich que estava residindo por lá, mas com sua máquina Virago 1100, em Santa Maria, pedindo estrada. Depois de alguns contatos surgiu o grupo de viagem com os seguintes integrantes: Edson Steglich – Virago 1100, Cleber Winckler – TDM 850, Renato Lopes – V-Strom 1000, Luiz Fernando Cunha – V-Strom 1000 e Bira – V-Strom 1000.
Após algumas reuniões (regadas a churrasco é claro!), muitos mapas, GPS e sugestões, estava definido o roteiro de viagem e atribuições de cada um dos integrantes.
Finalmente, no dia 26 de julho, chegara o grande dia. Eram exatamente 7 horas, quando partimos do posto da rótula com chuva intensa, como que nos querendo dar uma refrescada após tantos dias de seca, mas com o carinho do parceiro Irio que foi se despedir de nós, a coisa ficou light. A chuva nos acompanhou até a entrada do estado de Santa Catarina, quando o sol voltou a brilhar e a nos dizer que dali pra frente era tudo com ele. Chegamos a Ponta Grossa – PR, onde pernoitamos. Saímos logo cedo, pois meu irmão Clenio Winckler nos aguardava com churrasco, daqueles que um bom gaúcho, há seis anos longe da terra, se presta em fazer. Para matar bem a saudade da família, nada melhor que as presenças dos sobrinhos Rodrigo e Maurício (muito bem acompanhado da linda Isabela), que nos ladearam o tempo todo.
Catalão, Cristalina e finalmente Luziânia, uma paradinha para comprar algumas lembranças para os queridos que ficaram, e, logo ali…. Brasília. Na chegada, uma boa surpresa, nosso amigo e irmão, Dr. Remi Toscano, nos deu as boasvindas com sua ZX10 rápida como um lince e fugaz como uma águia. Ter um irmão e amigo deste quilate esperando é um sinal de dias felizes. Conduziu-nos em segurança até a residência do nosso amigo Julio (bem em frente ao local do encontro), que juntamente com sua esposa Vera e os irmãos Lopes (Flávio, Paulo e Lari), nos receberam com um carinho e amizade surpreendentes.
Uma passadinha no Motocapital para marcar as presenças e darmos um abraço rápido nos amigos, e a coisa incorporou e seguiu até a madrugada. Parabéns, amigos dos motogrupos organizadores, o ambiente estava 10, e o carinho de vocês nos fez sentir como se estivéssemos em nossas casas, principalmente os GANSOS que nos serviram aquele "caldo" delicioso e muita bóia.
O encontro dos Brazil Rider's (www.brazilriders.com.br) presentes, ciceroneados pelo Edu e Estenio, demonstraram a importância desta irmandade motociclística da qual nos orgulhamos de fazer parte. Quando nos demos conta, estávamos todos os BR's em uma galeteria gaúcha na asa sul de Brasília, fazendo aquela confraternização e tomando algumas geladas… é claro!
À tarde nos dedicamos a visitar a cidade e conhecer seus pontos turísticos, um mais belo que outro, tanto no aspecto político como histórico. Neste dia, conhecemos uma pessoa maravilhosa, daquelas que nos dá a sensação de que a conhecemos há anos, D. Irma, mãe do Remi, grande mãezona e companheira, 85 anos, muita saúde e muitas histórias de vida.
No domingo fomos conhecer o Memorial JK. Visitar o memorial deste grande brasileiro é lhe prestar um tributo, pela sua visão de grandeza e capacidade de realização. Todos nos sentimos mais brasileiros. Logo após, fomos para a residência do Paulo Lopes, onde conhecemos a sua família e convidados. Na chegada, já sentimos a familiaridade com a terra gaúcha, tanto pela música como pelo cheirinho de churrasco que se dissipava por toda a superquadra. Claro que o Bira ficou faceiro como "ganso novo em taipa de açude", não fosse a nossa intervenção, o mesmo tinha assumido o lugar do Paulo, pilotando a churrasqueira. Tudo posto no seu devido lugar, muito churrasco, cervejinha no ponto e aquela rede para a sesta. A tarde ficou pequena.
Na segunda-feira, dia 31, pé-na-estrada rumo a Cavalcante – GO, onde os irmãos Lopes, juntamente com o amigo Júlio (que fera!), nos aguardavam na pousada Veredas (www.pousadaveredas.com) de propriedade do Flávio Lopes. Mas antes da chegada, passamos no projeto de assentamentos de sem-terra, que recebeu dezenas de famílias de gaúchos. O almoço foi na casa da D. Rosa, que preparou aquela galinha caipira com polenta e saladas, que nos saciou a fome e nos fez sentir o carinho dessa nossa gente. Finalmente, lá pelas 16 horas, chegamos a Cavalcante, não sem antes conhecermos a comunidade dos Calungas.
A imensidão da chapada dos veadeiros nos faz sentir pequenos, locais belíssimos nos aguardando para interagirmos com aquela natureza toda. Neste momento, começamos a nos perguntar. Quantos anos? Quanta história? Quanta vida? Tudo ali naquela imensidão como a nos falar que devemos respeito a tudo isso. Foram momentos únicos nestes três dias que jamais se repetirão, mas fica a certeza de que outros momentos virão, principalmente pela beleza do passeio (caminhadas, escaladas e banhos nas cachoeiras). A equipe da pousada, capitaneada pelo mestre Flávio, pelos "guias" Paulo, Lari e Julio, abastecida pela Socorro, nos fez sentir maiores do que somos.
O retorno! A despedida! Deixamos pra trás pessoas que temos certeza de que "Deus as fez e guardou a receita para si", o Edson Steglich, o Remi Toscano, o Flávio, o Lari, o Paulo, o Júlio e todos os seus familiares. Fica a lembrança de dias especiais e a vontade de reencontro. Chegara a hora da estrada e assim pernoitamos dia 03, em São José do Rio Preto – SP, hotel IBIS. Saída pela manhã e chegada, à noitinha, em União da Vitória – PR, no hotel Nota 10.
Uma passadinha rápida na mana Cleusa Winckler, em Passo Fundo – RS, e o cheiro de casa. Para abrilhantar ainda mais, fomos recepcionados, ainda na estrada, em Itaara, pelo amigo gaudério Luiz Noal, que nos conduziu ao nosso destino final, onde nossos familiares e amigos nos aguardavam para aquela festa tradicional de chegada.
Foram 11 dias de uma grande viagem e muita amizade, ficando a certeza de que muitos momentos bons ainda nos aguardam. Obrigado aos companheiros de viagem, pelos momentos únicos que vivemos, e às nossas esposas e filhos, que se privaram de nossas presenças para que pudéssemos viver tudo isso.
Por Cleber Winckler
Adaptado por Renato Lopes

Iron Butt Association - 2004 - Novos Desafios

Iron Butt Association - 2004 - Novos Desafios

SaddleSore 1000 e Bur Burner 1500
Logo após realizarmos a prova SaddleSore 1000, da Iron Butt Association, em dezembro de 2003, já começamos a cogitar mentalmente os próximos passos para novos desafios. Foi em uma viagem de trabalho que a dupla inicial do primeiro SaddleSore, Renato e Bastianelo, começaram a projetar, com mais atenção, outros desafios que nos oferecessem maior grau de dificuldade, até porque eu tinha em mente realizar nova grande viagem pelos países da América do Sul.
Assim surgiu a decisão de fazermos o desafio Bun Burner 1500. Essa prova, significa que o motociclista deve percorrer 1500 milhas, cerca de 2414 km, em até 36 horas. Seguramente estávamos conscientes de que o esforço físico e mental seria bem maior, não só pela distância, mas, fundamentalmente, pelo tempo de pilotagem. Mas aí falou mais alto a determinação e a vontade de testar nossos próprios limites.
Quando nosso amigo gaudério, Jeferson Marchiori, grande parceiro de viagem, ficou sabendo da idéia, ficou tão entusiasmado que o convidamos para fazer parte do desafio Bun Burner 1500, já que também já havia realizado o SaddleSore 1000 e é um grande entusiasta de aventuras sobre duas rodas.
Foram feitas algumas reuniões de planejamento e acerto dos detalhes para colocarmos em prática nossa vontade, tipo, o roteiro escolhido, melhor horário para a partida, estimativa da velocidade de cruzeiro, previsões de abastecimentos, documentação e, finalmente, a data para entrarmos novamente em ação.
Definida a data da partida, lá estávamos nós, às 7 horas do dia 25 de setembro de 2004, no Posto Santa Maria, na rótula da Medianeira, sob uma forte cerração para dar início ao novo desafio.
Como é de costume em nossas partidas para viagens ou desafios, lá estavam os familiares e os amigos gaudérios para nos emprestar aquela palavra amiga e a força que, logo adiante, iríamos precisar para suportar a solidão do pensamento no capacete.
Saímos de Santa Maria em direção à BR 392 para alcançar a BR 290 até Rosário do Sul. Aí realizamos nosso primeiro abastecimento e pegamos a BR 158 em direção a Santana do Livramento e Montevidéu. A seguir, tocamos direto até Taquarembó, no Uruguai, não sem antes, passarmos pela alfândega que foi muitíssimo rápida, permiso na mão e alguns pesos uruguaios para alguma emergência, já que a opção no planejamento foi de utilizarmos cartões de crédito, com o objetivo de integrar o processo de comprovação da idoneidade da prova.
De Taquarembó, pela Ruta 5, seguimos direto até Durazno onde paramos novamente para abastecer. Estrada ótima e com curvas de alta velocidade, nos proporcionou uma pilotagem segura e com menos desgaste físico. Chegamos a Montevidéu às 16 horas e 25 minutos, horário uruguaio, que já, em setembro, estava com o horário de verão. Assim, já havíamos percorrido 10 horas e meia de estrada, uma vez que nossos relógios marcavam exatamente 17 horas e 25 minutos. Tudo dentro do planejado.
Motos abastecidas, registro fotográfico na mesma avenida da prova anterior, que dá acesso à capital uruguaia, contornamos uma rotatória para retornarmos, pela Ruta 5, à fronteira. Passamos pela aduana já à noite com muita tranquilidade e rapidez e retornamos ao Brasil para logo pegar a BR 290.
Nas paradas necessárias para abastecimentos, lanche e alongamento do esqueleto, decidimos que faríamos não só o Bur Burner 1500 mas também o SaddleSore 1000, quando chegássemos a Cachoeira do Sul. E tudo deu certo. Quando paramos para abastecer, tínhamos percorrido 1043 milhas em menos de 24 horas, o que nos garantiria mais um desafio SaddleSore 1000.
Como a prova exigia que pilotássemos por toda uma noite e sabendo que nossas estradas, na época, não estavam em perfeitas condições de segurança, notadamente em relação à sinalização horizontal, que é importantíssima para se rodar à noite de motocicleta, decidimos usar coletes de refletivos de segurança, em razão de que a BR 290 é a principal rodovia de ligação Brasil – Argentina, onde o transporte de carga é intenso. Foi uma medida acertada e que nos deu confiança e segurança para aquela noite escura.
Na madrugada, aproveitávamos as brincadeiras e "tiradas" do parceriro Jeferson para descontrair e relaxar os músculos, ao menos da face, pois ninguém conseguia segurar uma boa risada, que, ao final, se transformou em terapêutica.
A madrugada trouxe, além da escuridão da noite, um imenso cansaço que estava além da nossa imaginação quando da fase do planejamento. Ao chegarmos à praça de pedágio da BR 290 após Pantano Grande, resolvemos dar uma parada para passarmos água no rosto e alongarmos, mas acabou que o Bastianello e Jeferson dormiram na calçada de acesso ao prédio enquanto eu fazia exercícios para tentar espantar o sono que me abatia de forma implacável. Ainda na BR 290, na chegada a Porto Alegre, eu estava com muito sono e sugeri que chegássemos a um Motel que fica na beira da estrada para tomarmos um bom banho, tempo suficiente para descansarmos por uma hora. Mais uma boa decisão do grupo, saímos um pouco melhor após o banho.
Após passarmos por Porto Alegre, entramos na chamada "free way", mesma BR 290 e paramos para abastecimento e lanche já em Gravataí. Na lanchonete do posto de serviço, eu comecei a me sentir mal, muita tontura, quase sem tato e coordenação. Comentei com os parceiros e logo o Jerferson sugeriu que eu estava com hipoglicemia. Tinha sentido, eu estava fazendo pequenos lanches com café, mas estava gastando muita energia, com o elevado desgaste físico e mental para suplantar o cansaço e o sono. Comi um lanche mais reforçado e uma barra de chocolate inteira e, em poucos minutos, eu estava recuperado. Foi um susto, pois nunca havia passado por um mal-estar semelhante.
Seguimos em direção a Osório e entramos na Estrada do Mar. Logo que amanheceu o dia, fomos refrescados por uma leve chuva que não nos atrasou, mas, por certo, nos impôs uma atenção e concentração a toda prova, na medida em que o cansaço e o sono não combinam com pilotar na chuva.
Ao chegarmos a Terra de Areia, realizamos o retorno em direção a Porto Alegre e Canoas, onde rapidamente almoçamos enquanto as motos eram reabastecidas. Faltavam pouco menos de 300 km para concluirmos com sucesso o desafio, e nosso tempo estava dentro do planejado, assim, foi possível almoçar com um pouco de tranqüilidade para recompor as energias necessárias para chegarmos em casa. Isso já era uma das consequências desse tipo de prova, com maior tempo de duração, pois, a cada parada para reabastecimento, naturalmente se alongava em razão da necessidade de maior tempo para recuperação.
De Canoas, seguimos pela RST 287, passamos por Santa Cruz do Sul, chegando a Santa Maria às 15 horas e 24 minutos, do dia 26 de setembro, no mesmo local da partida, onde novamente nossos familiares e amigos gaudérios lá estavam para testemunhar as nossas vitórias pessoais em superar nossos limites. Em razão do horário previsto para a chegada, e ser final de semana, a imprensa já havia publicado matéria sobre a prova.
Foram 1515 milhas em exatas 32 horas e 24 minutos de pilotagem em situação de permanente superação.
A parceria, a solidariedade, a tolerância e a fraternidade entre os integrantes da aventura foram primordiais para o sucesso e nos motivaram, a cada instante, para concluirmos com êxito o desafio Bur Burner 1500.
Agradeço ao Supremo Criador por nos dar força para vencermos o cansaço e iluminar nossos caminhos na escuridão e aos nossos familiares e amigos pela torcida constante para retornarmos em segurança.
Pilotos e motocicletas:
Renato Lopes – Suzuki GSX 750 F
Cleberson Bastianello – Suzuki GS 500 E
Jeferson Marchiori – TDM 900

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Renato Lopes Motoviagem & Aventura

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